Dr. Leonardo Zacher em consulta no consultório, Esteio/RS

Saúde sexual masculina

Disfunção erétil e ejaculação precoce são queixas comuns, têm causas identificáveis e merecem avaliação médica.

Um assunto que demora a chegar ao consultório

Poucos temas em medicina são tão adiados quanto este. Em um estudo com homens de seis países, 53% dos que tinham disfunção erétil nunca haviam procurado tratamento. Em um levantamento populacional dinamarquês, 62% dos homens com queixa incômoda não haviam falado sobre ela nem com o clínico geral — e o motivo mais citado foi o constrangimento.

Adiar não prolonga apenas o desconforto. Como você vai ler abaixo, a disfunção erétil costuma ser o primeiro sinal visível de algo que está acontecendo nos vasos sanguíneos do corpo inteiro.

Disfunção erétil

É a dificuldade persistente de obter ou manter uma ereção suficiente para uma relação sexual satisfatória. A palavra importante é persistente: episódios isolados acontecem com praticamente todos os homens, por cansaço, álcool ou estresse. O que caracteriza a condição é a repetição.

É frequente. O estudo de referência internacional encontrou algum grau de disfunção erétil em 52% dos homens entre 40 e 70 anos. No Brasil, estima-se que cerca de 45% dos homens acima dos 50 anos convivam com algum grau de disfunção — o maior levantamento nacional sobre o tema já tem quase vinte anos, e segue sendo o melhor dado disponível.

De onde vem

Raramente há uma causa única. O quadro mais comum, sobretudo depois dos 40 anos, é misto — um componente físico e um emocional que se alimentam mutuamente.

Vasculares
As mais frequentes a partir da meia-idade. A ereção depende de um aumento rápido do fluxo de sangue; quando as artérias perdem calibre, esse fluxo fica insuficiente.
Metabólicas
Diabetes, obesidade, hipertensão, colesterol alterado e síndrome metabólica. O diabetes é um dos fatores mais fortes.
Medicamentosas
Vários remédios de uso contínuo interferem na ereção, entre eles alguns anti-hipertensivos e antidepressivos. É dos primeiros pontos a revisar — e nunca deve ser suspenso por conta própria.
Neurológicas
Lesões da medula, esclerose múltipla, doença de Parkinson e sequelas de cirurgias na pelve.
Hormonais
Alterações da testosterona, da prolactina ou da tireoide. Menos comuns do que se costuma imaginar — veja mais abaixo.
Psicológicas e relacionais
Ansiedade de desempenho, depressão e conflitos no relacionamento. Podem ser a causa principal, sobretudo em homens mais jovens, mas com frequência convivem com uma causa física.
Hábitos de vida
Tabagismo, sedentarismo, excesso de peso e álcool. São fatores de risco e, ao mesmo tempo, os pontos onde a mudança tem efeito real.

Como é a investigação

Menos invasiva do que a maioria imagina. Na maior parte dos casos, resolve-se com conversa, exame físico e exames de sangue:

  1. Conversa clínicaComo a queixa começou, se há ereções ao acordar, como está o desejo, que medicamentos você usa e quais doenças acompanha. Costuma responder boa parte da pergunta.
  2. Questionário validadoInstrumentos como o IIEF e sua versão reduzida (SHIM) medem a intensidade da queixa e permitem acompanhar a evolução.
  3. Exame físicoPressão, peso e circunferência abdominal, exame genital e, quando indicado, avaliação da próstata.
  4. Exames de sangueEm geral testosterona total colhida pela manhã, glicemia ou hemoglobina glicada, perfil lipídico e função renal. Boa parte deles investiga o risco cardiovascular, não só a queixa sexual.

O que existe em termos de tratamento

A escolha depende da causa identificada, das doenças que a pessoa já tem e dos medicamentos que usa. O repertório inclui o controle dos fatores de risco cardiovascular e mudanças de hábito, medicamentos de uso oral, terapias aplicadas diretamente no pênis, dispositivos de vácuo e o acompanhamento psicossexual, isolado ou combinado. A prótese peniana é a opção nos casos de falha do tratamento clínico e medicamentoso.

Nenhuma dessas opções se escolhe por conta própria nem por indicação de conhecido: a definição depende da avaliação individual.

Ejaculação precoce

Ejacular rápido, por si só, não é diagnóstico. A definição usada internacionalmente exige três elementos ao mesmo tempo:

  • Tempo. Ejaculação em até cerca de um minuto após a penetração, nos casos presentes desde o início da vida sexual; ou redução importante e incômoda desse tempo, em geral para cerca de três minutos ou menos, nos casos adquiridos.
  • Falta de controle. Incapacidade de retardar a ejaculação em todas ou quase todas as relações.
  • Repercussão pessoal. Sofrimento, frustração ou evitação da intimidade por causa disso. Sem este componente, não se trata de um diagnóstico.

Isso explica um descompasso grande nos números: perguntando diretamente aos homens, entre 20% e 30% se dizem afetados; pelo critério clínico completo, a proporção fica abaixo de 5%. Boa parte da queixa restante tem mais a ver com expectativa do que com uma condição a tratar — esclarecer isso também é papel da consulta.

As abordagens combinam, conforme o caso, técnicas comportamentais e acompanhamento psicossexual, alternativas farmacológicas e o tratamento da disfunção erétil quando ela também estiver presente. A evidência sugere que a combinação rende mais do que qualquer abordagem isolada.

E a testosterona?

O papel bem estabelecido da testosterona é sobre o desejo. Um homem com libido preservada e ereções ao acordar dificilmente tem uma causa hormonal por trás da queixa. Quando o desejo caiu junto, aí sim o eixo hormonal entra em primeiro plano — e costuma vir acompanhado de outros sinais: cansaço, perda de massa e força muscular, aumento de gordura corporal, humor para baixo, dificuldade de concentração.

A dosagem faz parte dos exames iniciais recomendados, colhida pela manhã e confirmada em nova coleta quando alterada. Mas encontrar um valor baixo não encerra a investigação — e repor hormônio sem essa avaliação é atalho que costuma frustrar.

O quadro de queda hormonal associada à idade — o DAEM, deficiência androgênica do envelhecimento masculino — tem investigação e tratamento próprios, avaliados em consulta.

Como é a consulta

Começa por uma conversa, e é nela que a maior parte do diagnóstico se constrói. Não há exame constrangedor de rotina para essas queixas: o exame físico é o mesmo de uma avaliação urológica comum, e os complementares, quando pedidos, são em geral de sangue.

Vale chegar sabendo há quanto tempo a queixa aparece, se começou de forma súbita ou gradual, se acontece em todas as situações, se existem ereções ao acordar, e quais medicamentos você usa — inclusive os que parecem não ter relação com o assunto. Levar a caixa ou uma foto das receitas resolve.

Se ajudar, a companhia da parceria é bem-vinda. E se não ajudar, também está tudo bem: a consulta é sua.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada pessoa tem histórico, doenças e medicamentos próprios, e é isso que define a conduta. Nenhuma informação aqui deve ser usada para iniciar, interromper ou trocar tratamento por conta própria.

Referências

  1. Feldman HA et al. Impotence and its medical and psychosocial correlates: results of the Massachusetts Male Aging Study. J Urol, 1994.
  2. Abdo CHN et al. Prevalência e fatores de risco para disfunção erétil na população brasileira. Rev Assoc Med Bras, 2006.
  3. Montorsi P et al. Association between erectile dysfunction and coronary artery disease. European Heart Journal, 2006.
  4. Dong JY, Zhang YH, Qin LQ. Erectile dysfunction and risk of cardiovascular disease: meta-analysis of prospective cohort studies. J Am Coll Cardiol, 2011.
  5. Kouidrat Y et al. High prevalence of erectile dysfunction in diabetes: systematic review and meta-analysis. Diabetic Medicine, 2017.
  6. American Urological Association. Erectile Dysfunction Guideline.
  7. AUA / SMSNA. Disorders of Ejaculation Guideline, 2020.
  8. International Society for Sexual Medicine. Unified definition of premature ejaculation, 2014.
  9. Shabsigh R et al. Help-seeking behaviour of men with erectile dysfunction. 2000.
  10. Rasmussen AKB et al. Help-seeking behaviour among men with erectile dysfunction. 2020.

Falar sobre isso é o passo mais difícil. O resto é rotina.

A consulta é conduzida com discrição e sem julgamento, no tempo necessário para esclarecer o que você precisar.

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